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Copa do Mundo expõe crise silenciosa das bets no comércio e na saúde

Por Sincomercio de Adamantina clock 23 de junho de 2026

Além do rombo na economia e inadimplência de consumidores, a dependência em jogos on-line elevou em quase 140% a busca por atendimento em saúde mental nos últimos 5 anos

A Copa do Mundo de 2026 mobiliza torcedores, mas a euforia do torneio em andamento tem servido para expor uma crise estrutural preexistente no Brasil e na Nova Alta Paulista: o impacto devastador das apostas esportivas eletrônicas, as chamadas bets. Longe de ser a causadora do problema, a competição atual joga luz sobre um rastro de endividamento e adoecimento mental que já vinha se consolidando silenciosamente no país.

Um estudo recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revelou que as plataformas de apostas retiraram R$ 143 bilhões do varejo nacional apenas de janeiro de 2023 a dezembro de 2025. O montante equivale a todo o volume de vendas dos períodos de Natal dos últimos dois anos somados. Durante a CPI das Bets, o Banco Central apontou que o gasto mensal dos brasileiros com os jogos on-line varia de R$ 20 bilhões a R$ 30 bilhões.

Em Adamantina e região, o setor produtivo já convive com esse golpe. Segundo Sergio Vanderlei, presidente do Sincomercio Nova Alta Paulista, a retração nas vendas é um processo contínuo. “Trabalhadores e consumidores, principalmente de baixa renda, já vinham comprometendo seus rendimentos com apostas, deixando de pagar algumas contas e de consumir bens essenciais”, afirma. Para ele, o impacto gerado exige muito mais do que apenas a regulamentação vigente das bets.

Perfil predominante do apostador brasileiro é de homens entre 18 e 50 anos | Foto: Reprodução/Internet

CASSINO NO BOLSO

A evasão sistemática de dinheiro do comércio é o sintoma econômico de uma patologia em escala nacional. Nos últimos cinco anos, o Ministério da Saúde registrou um crescimento de quase 140% na busca por serviços de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) devido à dependência em jogos on-line. Em 2025, o Brasil já contava com 25 milhões de apostadores. 

A gravidade do quadro levou mais de 500 mil brasileiros a solicitarem, apenas nos últimos 5 meses, a autoexclusão de seus cadastros em plataformas de apostas via portal gov.br, admitindo a perda do controle.

O médico psiquiatra João Vitor Ravazi, 34, alerta que o vício em apostas tem no cérebro o mesmo efeito que a dependência de drogas e álcool. Segundo o especialista, a facilidade de acesso via celular é um agravante severo. “É comparável a um alcoólatra andar com uma garrafa no bolso da calça todo o tempo”, diz. O quadro patológico começa com a perda de controle e a negação, seguindo para rituais de aposta e, em casos crônicos, a busca exclusiva pela sensação de jogar, independentemente de vitórias.

Neste contexto de vulnerabilidade, a Copa do Mundo não cria o problema, mas atua como um catalisador em larga escala. Ravazi ressalta que o excesso de propaganda, o apelo emocional e a facilidade do torneio funcionam como fortes gatilhos. A competição estimula apostas de resultados aparentemente inocentes entre amigos, funcionando como porta de entrada para novos dependentes, e provoca um risco altíssimo de recaída para adictos que já estavam em remissão.

Para frear o ímpeto durante crises de abstinência, o especialista adverte que a ferramenta governamental de autoexclusão é positiva, mas insuficiente de forma isolada. O tratamento eficaz exige que o paciente primeiro admita a doença e conte com o acréscimo de outras estratégias: psicoterapia, bloqueio do acesso direto a recursos financeiros (direcionamento de salário para terceiros) e uma rede de apoio estruturada. Em casos graves, a intervenção com medicamentos e internações psiquiátricas se faz necessária.

Matéria: Site Impacto Notícias.