Tecnologia e reformas são os caminhos para conter a criminalidade
Plenária reúne lideranças públicas para discutir o avanço de uma agenda voltada para o enfrentamento da principal preocupação da sociedade

O descontentamento da população brasileira com a segurança pública deve dominar o debate eleitoral ao longo deste ano. A preocupação perpassa o cotidiano de toda a sociedade: do consumidor, que altera hábitos, evita determinadas áreas urbanas e reduz sua circulação; dos empresários do Comércio e dos Serviços, que convivem diariamente com o avanço dos furtos e roubos em seus estabelecimentos (e da violência contra empregados e clientes); e da Indústria, que depende de um escoamento da produção cada vez mais caro e arriscado, uma vez que o transporte de cargas opera sob ameaça constante, com altos custos e poucas garantias contra roubos. Em todos os casos, a violência e a insegurança corroem a viabilidade econômica do setor produtivo.
Foi com esse diagnóstico que a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) e o Centro do Comércio do Estado de São Paulo (Cecomercio) dedicaram sua primeira reunião plenária de diretorias do ano ao tema. Para o debate, a Entidade recebeu Orlando Morando Júnior, secretário municipal de Segurança Urbana da Prefeitura de São Paulo, e o delegado e deputado federal Paulo Francisco Muniz Bilynskyj (PL/SP). Confira alguns destaques a seguir!
Tecnologia a serviço da segurança urbana
Morando Júnior apresentou o programa Smart Sampa como modelo de resposta municipal ao avanço da criminalidade. Segundo ele, é no âmbito dos municípios que os problemas se manifestam, e são neles que as soluções precisam ser implementadas.
O secretário destacou que o sistema de videomonitoramento de segurança é hoje o maior da América Latina, com Inteligência Artificial (IA) integrada. “A Cidade de São Paulo já tem 40 mil câmeras, sendo 20 mil próprias do Smart Sampa e 20 mil privadas. Todos os comércios que têm uma câmera anexada à nuvem podem se conectar ao programa sem custo algum, e nós passamos também a olhar essa imagem. Isso tem ampliado muito a capilaridade da cobertura de videomonitoramento na capital”, sustentou.
A tecnologia, segundo Morando Júnior, permite identificar foragidos com velocidade e precisão. “Em quatro segundos eu já sei se eles estão em um banco de dados. Em oito segundos, chego a 92% de confirmação”, explicou.
O Smart Sampa tem sido um pleito de longa data do setor produtivo, sobretudo do comércio do centro da capital, que conviveu com a violência e os roubos causados pelo deslocamento da região da cracolândia há alguns anos. À época, a área em torno da Rua Santa Ifigênia — cuja comercialização é centrada principalmente em dispositivos de tecnologia e peças de alto custo para computadores, consoles de videogame etc. — chegou a operar com portas fechadas em razão da violência. A FecomercioSP atuou com os Sindicatos filiados em prol do combate a esses crimes, uma demanda levada ao governo estadual e à prefeitura, e que posteriormente resultou no programa de instalação de câmeras.
Reforma legislativa e o custo do crime
Bilynskyj trouxe uma perspectiva pouco otimista sobre o horizonte da segurança pública no País — e apontou o legislativo como o principal “campo de batalha”. “Segurança pública é, hoje, o assunto que mais preocupa a população brasileira. Vai ser o assunto decisivo da eleição de 2026”, salientou. “Não há uma perspectiva de melhoria imediata dessa pauta, porque esta é arrastada por uma série de fatores que no Brasil está se agravando.”
Dentre eles, o deputado federal destacou a relação direta entre desemprego e criminalidade. “Toda vez que a economia piora, que o emprego formal cai, que a empregabilidade diminui, a criminalidade aumenta”, advertiu.
Para o parlamentar, a solução passa por uma única premissa: ampliar o custo do crime. “A única coisa que a gente tem que fazer é tornar o crime realmente algo que não compensa. E o que precisamos fazer para isso? Uma série de reformas na legislação que vai facilitar o trabalho da polícia e do Judiciário. Todo o grande cerne do problema da segurança pública está no custo do crime, que no Brasil é baixíssimo.”
Bilynskyj elencou três frentes legislativas que considera prioritárias e que merecem acompanhamento próximo do setor produtivo:
- a primeira é o Projeto de Lei (PL) antifacção, que avançou ao longo de 2025;
- a segunda é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da segurança pública, que, segundo ele, “abre um novo capítulo na história dessa pauta na Constituição Federal e cria a porta para uma legislação que realmente mantenha o preso na cadeia”;
- a terceira é o PL 2.646/2025, descrito pelo parlamentar como “uma reforma completa de mais de 11 textos legais relacionados com o Direito Penal e com a segurança pública, com capacidade real de implementar um cenário positivo para o futuro do Brasil”. O texto, concluiu, “foi construído em conjunto com a Frente Parlamentar do Livre Mercado e vem das demandas dos setores”.
Durante a reunião plenária, o presidente em exercício da FecomercioSP, Ivo Dall’Acqua Júnior, entregou ao deputado um conjunto de ponderações e propostas elaboradas pela Entidade e pelos Sindicatos filiados acerca da agenda de segurança pública. Confira os detalhes!
“Esse problema representa um grave obstáculo econômico. O Brasil carece de eficiência na alocação de recursos nessa área. Muito permanece restrito a ações reativas, em detrimento da prevenção, da inteligência e da integração institucional. Vemos alguns avanços pontuais, inclusive no Estado e na capital paulista. Isso é muito positivo, um termômetro. Mas o fato é que lidamos com a expansão do crime organizado, a fragilização da presença estatal e um ambiente permanente de insegurança”, alertou Dr. Ivo. “Os impactos econômicos são expressivos: empresas do Estado deixam de faturar aproximadamente R$ 65 bilhões por ano em razão da violência. Isso ocorre porque são obrigadas a gastar com câmeras, seguros, escoltas e blindagens para suprir aquilo que deveria ser garantido pelo Poder Público”, finalizou.