Página inicial NR-1: conceitos abertos podem gerar insegurança jurídica a empresas

NR-1: conceitos abertos podem gerar insegurança jurídica a empresas

Por Sincomercio de Adamantina clock 14 de setembro de 2026

Norma foi debatida em reunião do Conselho do Mercado Imobiliário da FecomercioSP, que tratou também da PEC do fim da escala 6×1, do aluguel consignado e de outros temas

NR-1: conceitos abertos podem gerar insegurança jurídica a empresas

A subjetividade da Norma Regulamentadora 1 (NR-1) na definição de critérios para o gerenciamento dos riscos psicossociais pode gerar insegurança aos negócios, pois os empresários não têm clareza sobre o que mapear, como documentar, quais medidas adotar, com que periodicidade e, sobretudo, se as providências tomadas serão consideradas suficientes pelo agente fiscalizador. Esse foi o principal tema da reunião do Conselho do Mercado Imobiliário (CMI) da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP),  liderado pelo Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis de São Paulo (Secovi-SP).

Diferentemente de riscos ocupacionais de ergonomia mais objetivos, como temperatura, iluminação ou condições do mobiliário, a NR-1 trabalha com conceitos abertos e sem critérios suficientemente claros de aplicação quanto à organização do trabalho. Como foi destacado nos debates, uma mesma prática de gestão pode ser vista de maneiras diferentes dependendo da interpretação do fiscalizador.

Outro ponto crítico levantado é a mistura entre riscos psicossociais, situações individuais e questões que já têm tratamento jurídico próprio, especialmente os assédios moral e sexual. Os participantes apontaram que colocar alegações de assédio em questionários de mapeamento de riscos pode fragilizar a empresa, pois uma resposta afirmativa exige apuração específica e pode gerar consequências graves mesmo quando a denúncia não se confirma. 

Karina Negreli, assessora da FecomercioSP, e Luciana Diniz, integrante do Conselho de Emprego e Relações de Trabalho (CERT) da FecomercioSP e advogada da Confederação Nacional do Comércio (CNC), enfatizaram que a NR-1 precisa ser mais objetiva, com critérios e parâmetros claros, observando, prioritariamente, a organização e a gestão do trabalho com efeitos sobre o ambiente, não avançando na subjetividade individual de cada trabalhador.

Roberta Bigucci, diretora da construtora MBigucci e vice-presidente do CMI, e Moira Regina de Toledo, diretora de Risco e Governança da Lello Imóveis, discorreram sobre programas e ações de suas empresas que reforçam a cultura organizacional e previnem situações que possam afetar o ambiente laboral e a saúde dos funcionários, em especial conflitos, problemas de relacionamento e falta de pertencimento. Apesar da imprecisão e subjetividade da NR1, ambas as empresas procuram atuar preventivamente, criando mecanismos para que os próprios funcionários identifiquem e comuniquem problemas em canais de escuta, o que pode ajudar no atendimento da norma. No entanto, nem todas as empresas do setor contam com a mesma disponibilidade de estrutura para atuação nessa pauta.

PEC do fim da escala 6×1

Diante da possibilidade de aprovação pelo Senado da PEC 221/2019,  que reduz a jornada e altera a escala de trabalho para 5×2, Reiner Leite, assessor legislativo da FecomercioSP, disse que a estratégia da Entidade é defender que a sua aplicação leve em conta as particularidades de cada atividade econômica, por meio de acordos e convenções coletivas, conforme estabelece a Emenda 18, apresentada pelo Senador Laércio Oliveira (SE). A emenda não foi aceita pelo relator, mas pode ser votada como destaque no Plenário. A emenda não altera o objetivo central da proposta, mas busca garantir mais flexibilidade a setores com diferentes características operacionais. 

Para Reiner, a PEC trata como iguais atividades que são diferentes, fazendo uma analogia quanto à inadequação da medida para muitos setores, como se todos tivessem de “calçar o mesmo sapato tamanho 40”, independentemente das características físicas do indivíduo, o que poderia ser melhor trabalhado, pelas negociações coletivas, as quais foram enfraquecidas no texto aprovado na Câmara e na CCJ do Senado.  

Vander Giordano, vice-presidente da Multiplan, observou que a mudança da jornada e da escala terá forte impacto não só nas micro e pequenas empresas, mas também nos programas do governo, como o Minha Casa Minha Vida, e nas despesas na área da saúde, da educação, da segurança pública. “As prefeituras, por exemplo, não estão preparadas para isso e deverão rever todos os contratos de prestação de serviços, que deverão serão reajustados”, acrescentou 

Inspeção de edificações

O vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade do Secovi-SP, Carlos Borges, relatou os esforços da entidade para apoiar a regulamentação da inspeção de edificações. O projeto, em tramitação no Congresso, deve estabelecer parâmetros gerais — como a obrigatoriedade e a periodicidade das inspeções —, mas isso não elimina a necessidade de leis municipais que regulamentem a sua aplicação de adaptem as exigências às características de cada cidade. 

Na sua opinião, a inspeção deve cumprir três objetivos centrais: fomentar a cultura de manutenção preventiva e corretiva; verificar o cumprimento da legislação vigente, incluindo as exigências e os documentos de segurança (como os relacionados ao Corpo de Bombeiros); e identificar sinais de possíveis problemas que possam comprometer a segurança e o conforto das edificações. 

Pessoas com autismo

Pedro Krähenbühl, diretor Institucional do Secovi-SP, destacou que tramita na Câmara dos Deputados, do projeto que cria a política nacional para pessoas com autismo, prevendo uma série de obrigações para estabelecimentos comerciais — como atendimento prioritário, reserva de espaços e salas sensoriais. Para o setor, a maior preocupação está nos custos e na amplitude das exigências, além dos impactos indiretos de outra medida prevista no projeto: a possibilidade de saque do FGTS, estimado por Krähenbühl em R$ 9,6 bilhões, com efeitos sobre os recursos destinados a políticas habitacionais.

Aluguel consignado 

Krähenbühl destacou, também, a proposta do aluguel consignado, em tramitação do Senado, como medida capaz de facilitar o acesso à moradia, ao permitir o pagamento do aluguel diretamente por meio de desconto em folha. “A maior previsibilidade do pagamento pode reduzir a necessidade de garantias e facilitar a aprovação dos contratos, principalmente num cenário em que a renda das famílias perdeu poder de compra”, disse.  

Reforma tributária

O advogado Rodrigo Dias relatou que o governo não pretende adiar o início da reforma tributária, que começará em 2027, mesmo que ainda faltem regulamentações, documentação e ferramentas necessárias para sua aplicação. Também preocupam o setor imobiliário os efeitos do split payment sobre o capital de giro das empresas e o possível aumento dos custos de construção e dos preços dos imóveis. Como ponto positivo, foi citada a intenção da Receita Federal de adotar inicialmente uma postura mais orientativa do que punitiva, permitindo a correção de erros antes da aplicação de multas. A FecomercioSP, a CNC e os sindicatos mantêm atuação no Congresso e mobilização pública para tentar aperfeiçoar a reforma e reduzir seus impactos sobre as empresas.

Estado de direito

Na abertura da reunião, a presidente do CMI, Márcia Lerário Taques, defendeu a importância da mobilização coletiva frente ao atual quadro institucional e convidou os integrantes do Conselho a aderirem ao Manifesto à Nação Brasileira, da FecomercioSP, que alerta para a grave crise institucional que tem como epicentro o Supremo Tribunal Federal (STF). O documento defende que a legitimidade da Corte depende de imparcialidade, transparência e respeito ao Estado de direito, e cobra que o Plenário examine, em sessão pública e com urgência, os fatos que colocam sua atuação sob questionamento. 

Matéria: Site Fecomercio