Extinção da escala 6×1 ameaça folha, preços e empregos no Turismo
Com 87% das jornadas acima de 40 horas, setor figura entre os mais expostos às propostas em tramitação no Congresso

Discussão pública em torno do tema ainda carece de base técnica mais consistente
O debate sobre o fim da escala 6×1 reinseriu uma questão sensível no centro da agenda do mercado laboral: como garantir melhores condições ao trabalhador sem comprometer os setores que não operam em lógica linear?
Atividades econômicas distintas exigem arranjos também diferenciados, o que torna inviável uma regra uniforme para todos os segmentos. Esse foi o diagnóstico da reunião de março do Conselho de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
“A negociação coletiva tem sido um instrumento mais adequado para que seja adaptado de acordo com a atividade e com a região”, afirmou Guilherme Dietze, presidente do Conselho de Turismo da Entidade. A Federação defende uma discussão mais ampla, técnica e setorializada antes de qualquer mudança legal.
Reflexos para o Turismo
A discussão não pode ignorar o custo adicional imposto às empresas, tampouco o peso disso sobre setores intensivos em mão de obra, como o Turismo. Segundo os dados apresentados na reunião, 87% das jornadas de trabalho do setor estão acima de 40 horas semanais, o que indica alta exposição do segmento a mudanças dessa natureza.
De acordo com a simulação apresentada pelo gestor da área Econômica da FecomercioSP, Fabio Pina, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que reduza a jornada para 40 horas pode elevar o custo da folha em 5% para quem, hoje, opera entre 40 e 44 horas, e em 10% para empresas com jornadas superiores a 44 horas. Numa proposta mais rígida, de 36 horas, esse impacto pode chegar a 16,7% e 22,2%, respectivamente.
No recorte setorial, o Turismo aparece entre os mais afetados. Pelos cálculos da FecomercioSP, o custo adicional anual da folha pode alcançar R$ 200,5 milhões num cenário de jornada de 40 horas, e R$ 672,7 milhões caso o limite caia para 36 horas.
Operação contínua
Na avaliação da Entidade, o problema não se resume à folha. Em segmentos que dependam de atendimento em fins de semana, feriados e horários estendidos — como hotelaria, alimentação, transporte e agências —, a reorganização das escalas deve pressionar preços, reduzir a flexibilidade operacional e exigir contratações adicionais para cobrir turnos críticos.
Segundo Pina, a discussão pública em torno do tema ainda carece de base técnica mais consistente. “Os números estão sendo mostrados: vamos perder empregos, aumentar custos e repassar para os preços”, disse. Na visão da FecomercioSP, o risco é transformar uma pauta complexa em resposta simplificada, sem considerar diferenças entre setores, portes de empresa e realidades regionais.
Momento inadequado
Segundo Dietze, o que o setor produtivo busca não é interditar o debate sobre jornada de trabalho, mas afastar soluções impostas “de cima para baixo”, sobretudo em momento eleitoral. “O mais importante para nós, da FecomercioSP, é que não seja um top down em ano eleitoral. Uma mudança com potencial de afetar emprego, preços e competitividade precisa ser amadurecida com tempo, dados e negociação.”
O pano de fundo econômico apresentado no encontro ajuda a dimensionar essa cautela. Em janeiro de 2026, o faturamento do Turismo cresceu 2,3% na comparação anual, somando R$ 25,9 bilhões, com avanço em segmentos como alojamento, alimentação, locação de meios de transporte e agências de viagens. Num setor que ainda busca ampliar dinamismo e recompor mão de obra, a avaliação da FecomercioSP é que qualquer alteração estrutural nas jornadas precisa considerar não apenas a intenção da medida, mas também seus efeitos concretos sobre a atividade econômica. “O desafio é encontrar um caminho que melhore as condições de trabalho sem comprometer a capacidade de operação das empresas e o próprio dinamismo do setor”, concluiu Dietze.