Página inicial Conflito no Oriente Médio: repercussões para o Brasil e para o Comércio mundial

Conflito no Oriente Médio: repercussões para o Brasil e para o Comércio mundial

Por Sincomercio de Adamantina clock 03 de março de 2026

País deve agir preventivamente, diversificando fornecedores e ampliando a abertura comercial para reduzir riscos econômicos frente a novas tensões geopolíticas

Conflito no Oriente Médio: repercussões para o Brasil e para o Comércio mundial

A forma como o Brasil navegará pelas pressões externas preservará a estabilidade interna e manterá a própria credibilidade internacional

A morte do ditador aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, confirmada depois do ataque coordenado por forças dos Estados Unidos e de Israel contra instalações estratégicas em Teerã (capital daquela nação), teve influência direta no centro de poder iraniano e espalhou tensão pelo Oriente Médio. 

O bombardeio atingiu o complexo onde o líder estava e pôs fim a quase 40 anos de um comando marcado por forte centralização e vigilância violenta constante sobre a sociedade. A saída abrupta de uma figura tão dominante abriu um vácuo político difícil de administrar, elevou o nível de alerta das forças militares e alimentou discursos de retaliação, criando um ambiente de incerteza que rapidamente ultrapassou as fronteiras do Irã.

As repercussões geopolíticas vieram praticamente no mesmo instante. Sem o ditador, o regime perdeu o seu ponto de equilíbrio e viu alas mais duras ganharem espaço, defendendo respostas mais amplas contra interesses norte-americanos e israelenses. Grupos alinhados a Teerã, como o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen, intensificaram ataques e movimentações, o que aumentou o risco de um conflito mais amplo. A possibilidade de uma escalada envolvendo vários países da região cresceu substancialmente, em especial com a movimentação de tropas dos Estados Unidos no Golfo Pérsico e o reforço das defesas israelenses. A indefinição sobre quem assumirá o comando no Irã adiciona um elemento de instabilidade que tende a se prolongar e dificulta qualquer tentativa de diálogo mais estruturado.

Consequência à economia global

No campo econômico, o impacto mais imediato apareceu no mercado de energia. O anúncio de restrições à navegação no Estreito de Ormuz, por onde passa uma fatia significativa do petróleo mundial, fez o preço do barril disparar e se aproximar dos
US$ 80. Isso aconteceu porque o estreito, que passa entre o Irã e o Omã, é um dos cruzamentos marítimos mais importantes do mundo. Com 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito — e com canais de navegação de 3 quilômetros de largura em ambas as direções —, liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico e ao Oceano Índico.

O Estreito de Ormuz, entre Irã e Omã, é uma das passagens marítimas mais estratégicas do mundo. Com apenas 33 quilômetros em seu ponto mais estreito, conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico e ao Oceano Índico. Por ali, transitam aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo por dia — cerca de um quinto de todo o petróleo transportado por via marítima no mundo

O Golfo de Omã, em que se encontra o estreito, é a segunda via navegável mais importante para o transporte de petróleo para o mundo (a mais importante rota marítima é o Estreito de Malaca, localizado entre a Malásia e a Indonésia), com 17,8 a 21 milhões de barris de petróleo transitando diariamente pela via, cerca de 20% de todo o petróleo bruto negociado por mar e quase 30% de todo o petróleo bruto e a granel transportados por mar (incluindo GNL).

A reação se espalhou pelos mercados financeiros e, a depender dos desdobramentos desse conflito, haverá elevação nos custos de importação de combustíveis e pressão sobre as cadeias produtivas que dependem de energia. Economias mais vulneráveis a oscilações externas sentirão a fuga de capitais e a desvalorização de suas moedas, enquanto setores industriais já projetam encarecimento expressivo nos custos logísticos e operacionais. Esse conjunto de fatores gera o temor de uma recessão global alimentada pela inflação energética e pela desaceleração do comércio internacional.

Consequências para o Brasil e o Agronegócio

Para o Brasil, mesmo que não haja uma dependência direta do petróleo que passa pela região, os efeitos do bloqueio sobre a cotação do petróleo no mercado internacional, sem dúvida, afetariam os preços internos dos combustíveis, justamente em um momento em que o País busca trazer a inflação de volta para a meta. Estima-se que um aumento de 10% no preço da gasolina possa impactar o IPCA em aproximadamente 0,5%, sem considerar os efeitos indiretos.

Outro ponto de preocupação para o Brasil é que os dois países envolvidos diretamente no conflito são importantes fornecedores de fertilizantes para o Agronegócio, e um acirramento poderia refletir na cadeia de abastecimento e, consequentemente, nos preços de produtos como soja, café, milho etc. Uma série de outros setores, como transportes rodoviário e aéreo, também seria impactada pelo aumento de custo de energia.

Em 2025, o Irã ocupou a 31ª posição no ranking de destino das exportações brasileiras, as quais totalizaram aproximadamente US$ 2,9 bilhões, queda de 2,7% após ter crescido 30,6% em 2024, em que se destacam o milho e a soja como principais produtos. Para Israel, foram exportados apenas US$ 568,6 milhões, sendo o 60º principal destino das exportações. Do lado das importações, o Brasil importou US$ 1,9 bilhão, dos quais 37% foram de adubos ou fertilizantes, seguidos por inseticidas, fungicidas etc., com 7,6% do total.

Caminhos para o Brasil em meio ao conflito

Nos campos político e diplomático, o País precisa equilibrar sua relação histórica com os Estados Unidos sem comprometer as parcerias estratégicas no Golfo Pérsico, ao mesmo tempo que acompanha a situação de brasileiros que vivem em áreas potencialmente afetadas. É fundamental que se adotem posições cautelosas, principalmente considerando o recente ingresso do Irã no Brics.

Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) avalia que o Brasil terá de combinar cautela diplomática com capacidade de adaptação econômica. No curto prazo, será importante reforçar mecanismos que reduzam a exposição à volatilidade internacional, além de diversificar fornecedores de energia e fortalecer instrumentos que diminuam a dependência de combustíveis importados. A médio prazo, o País pode aproveitar a reorganização geopolítica para ampliar a presença em mercados emergentes afetados pela crise, consolidando-se como um ator moderador e um fornecedor confiável de alimentos e energia. 

A forma como a Nação navegará pelas pressões externas preservará a estabilidade interna e manterá a própria credibilidade internacional, que será decisiva para transformar um momento de risco em uma oportunidade de reposicionamento global.

Matéria: Site Fecomercio