Página inicial Apesar dos juros e da inflação, mercado de trabalho sustenta otimismo do consumidor em São Paulo

Apesar dos juros e da inflação, mercado de trabalho sustenta otimismo do consumidor em São Paulo

Por Sincomercio de Adamantina clock 04 de agosto de 2026

Queda da intenção de consumo aponta cautela das famílias diante de endividamento e juros elevados

Apesar dos juros e da inflação, mercado de trabalho sustenta otimismo do consumidor em São Paulo

A percepção das famílias paulistanas sobre a situação econômica recuou em julho, de acordo com a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) apontou queda de 2% em relação a junho, registrando 121,6 pontos. Na comparação com julho de 2025, contudo, houve alta de 11,6%. 

Embora a confiança do consumidor permaneça em patamar de otimismo, o resultado de julho aponta para uma mudança no comportamento familiar. O mercado de trabalho continua sustentando a renda e evitando uma deterioração mais intensa das expectativas, porém esse impulso já não se traduz na mesma intensidade em aumento do consumo. O ambiente de juros elevados, inflação ainda concentrada em despesa essenciais e elevado comprometimento da renda está levando os consumidores a adotarem uma postura mais cautelosa nas decisões de compra.

O ICC varia de 0 a 200 pontos. Resultados iguais a 100 pontos indicam neutralidade; abaixo desse patamar, pessimismo; e acima, otimismo. Quanto mais o índice se aproxima de um desses extremos, maior é a intensidade do sentimento. Assim, estar acima dos 100 pontos não significa ausência de dificuldades, mas que as avaliações favoráveis superam as desfavoráveis.

[Gráfico 1]

Índice de Confiança do Consumidor (ICC) — série histórica

Fonte: FecomercioSP

De acordo com a FecomercioSP, o mercado de trabalho continua sendo o principal fator de sustentação da confiança dos consumidores. A combinação entre baixa taxa de desemprego, crescimento da renda e expansão da massa salarial preserva a capacidade de pagamento das famílias. Entretanto, esse ambiente favorável passou a conviver com um custo financeiro elevado. A inflação (ainda concentrada em itens essenciais), os juros em patamar restritivo e o elevado endividamento reduzem a margem disponível a novos gastos, tornando o consumidor mais seletivo quanto a preços, prazos, condições de pagamento e compras de maior valor.

Em julho, a queda da confiança atingiu todos os grupos pesquisados, com destaque para os lares com renda de até dez salários mínimos (-2,6%), os homens (-2,5%) e os consumidores com menos de 35 anos (-2,1%). Na comparação anual, entretanto, todos os segmentos apresentaram alta, sendo as maiores variações registradas entre esses mesmos grupos: homens (13,3%), consumidores com menos de 35 anos (12,9%) e lares com renda de até dez salários mínimos (12,4%). De acordo com a FecomercioSP, o comportamento desses grupos sugere mais sensibilidade às mudanças nas condições de emprego, renda disponível, inflação e acesso ao crédito.

[Tabela 1]

Índice de Confiança do Consumidor (ICC) – segmentos

Fonte: FecomercioSP

Entre os subíndices que compõem o ICC, o Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA) apresentou o maior recuo, com queda de 3,1%, atingindo 114 pontos. Contudo, na comparação anual, o subíndice cresceu 11%.

[Tabela 2]

Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA) – segmentos

Fonte: FecomercioSP

O Índice de Expectativas do Consumidor (IEC), por sua vez, recuou 1,4% em relação a junho, atingindo 126,7 pontos. Com exceção daqueles que recebem dez salários mínimos ou mais (avançando 0,5%), todos os demais componentes apresentaram resultados negativos. No comparativo com o mesmo período de 2025, houve alta de 12%, sendo que todos os segmentos registraram resultados positivos relevantes. 

[Tabela 3]

Índice de Expectativas do Consumidor (IEC) – segmentos

Fonte: FecomercioSP

O comportamento simultâneo dos dois subíndices mostra que o consumidor passou a avaliar de forma mais cautelosa tanto sua situação econômica atual quanto as perspectivas para os próximos meses. Ainda que ambos permaneçam acima da linha de otimismo, o recuo disseminado entre praticamente todos os segmentos indica uma acomodação da confiança após o forte avanço observado ao longo dos últimos 12 meses.

Intenção de consumo das famílias recua

A Intenção de Consumo das Famílias (ICF), outro indicador da FecomercioSP — que varia de zero a 200 pontos —, também apresentou retração em julho. O ICF caiu 0,4%, atingindo 112,3 pontos. Foi a quarta queda seguida do indicador. A sequência de recuos reforça que a confiança elevada não tem sido suficiente para estimular o consumo na mesma intensidade. A população continua com disposição para consumir, porém prioriza gastos essenciais e posterga decisões que envolvam mais comprometimento financeiro. Na comparação anual, o indicador registrou alta de 6,3%. 

[Gráfico 2]

Intenção do Consumo das Famílias (ICF) – série histórica

Fonte: FecomercioSP

Dentre as variáveis que compõem o indicador, momento para duráveis obteve a maior variação positiva em relação a junho (2,5%) e ao sétimo mês de 2025 (16,9%). Contudo, em termos de pontuação, o quesito ficou no patamar de insatisfação, com 81,6 pontos. Perspectiva de consumo subiu 1,7%, para 106,2 pontos, e cresceu 10,3%, na comparação anual. Nível de consumo variou 0,3%, passando para 89,7 pontos, e cresceu 7,5% no comparativo interanual. Já acesso ao crédito variou 0,1%, com 111,7 pontos, e alta de 9,9% em comparação com julho de 2025.

Por fim, emprego atual registrou queda de 0,8%, atingindo 141,8 pontos, e cresceu 6,9% no comparativo interanual. Perspectiva profissional registrou queda de 4,1%, alcançando 115,9 pontos e queda de 5,1% no comparativo com o mesmo mês de 2025. Renda atual sofreu queda de 1,1% em relação ao mês anterior (139,0 pontos) e alta de 4% no comparativo anual.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com o mercado de trabalho encerrando o trimestre finalizado em maio com uma menor taxa de desocupação (5,6%), o rendimento real crescendo 4% em um ano e a massa real de rendimentos avançando 4,8%, a ocupação e a renda estão amortecendo os efeitos dos juros elevados sobre o consumo. Por outro lado, mesmo com o cenário atual favorável, há mais prudência das famílias com compromissos de longo prazo: a inflação desacelerou para 0,16%, em junho, acumulando 4,64% em 12 meses, mas continua pressionando justamente grupos de maior peso no orçamento familiar, reduzindo a renda disponível para despesas discricionárias, afetando principalmente os consumidores de menor renda e limitando a recuperação do consumo.

Somado a esse quadro, há o endividamento — que atingia 74,1% dos lares na capital paulista em junho —, o maior nível em quatro anos. Com a taxa Selic em 14,25% ao ano, o custo das operações permanece elevado para os consumidores. Embora o ciclo de juros esteja desacelerando gradualmente, seus efeitos sobre o consumo permanecem relevantes. Assim, as operações de financiamento continuam mais caras, restringindo principalmente as compras de maior valor agregado. Assim, mesmo com o crescimento anual expressivo apresentado pelo quesito Momento para Duráveis (16,9%), a sua continuidade na zona de insatisfação (81,6 pontos) mostra que ainda não há evidências de normalização plena das compras financiadas, como veículos, móveis e eletrodomésticos.

[Tabela 4]

Intenção de Consumo das Famílias — componentes

Fonte: FecomercioSP

Entre as famílias que recebem até dez salários mínimos, o ICF ficou praticamente estável em julho, atingindo 111,5 pontos. Na comparação com o mesmo período do ano passado, porém, houve avanço de 7,7%. A maior queda entre as variáveis foi registrada no item Perspectiva Profissional (que caiu 3,4%, em relação a junho, e 6% na comparação com julho de 2025). Contudo, o quesito permaneceu na zona de otimismo com 115,1 pontos. Já Consumo Atual (86,8 pontos) e Momento para Duráveis (79,6 pontos), que cresceram 1,1% e 2,5%, respectivamente, ficaram abaixo da linha que separa o otimismo do pessimismo.

No comparativo interanual, momento para duráveis (19%), acesso ao crédito (13,5%), perspectiva de consumo (11%) e nível de consumo atual (10,7%) foram os principais destaques positivos. 

[Tabela 5]

Intenção de Consumo das Famílias  — até 10 salários mínimos

Fonte: FecomercioSP

Nos lares com renda superior a dez salários mínimos, o ICF recuou 1,7%, passando para 114,5 pontos, mas ficando 2,4% acima do registrado em julho de 2025. Perspectiva Profissional (-6%), Renda Atual (-2,7%), Acesso ao Crédito (-1,6%) e Nível de Consumo Atual (-1,6%) apresentaram as maiores quedas mensais. 

[Tabela 6]

Intenção de Consumo das Famílias — Mais de 10 salários mínimos

Fonte: FecomercioSP

Na avaliação da FecomercioSP, os resultados do ICC e do ICF indicam que o consumidor paulistano continua otimista, porém significativamente mais criterioso em suas decisões de compra. O mercado de trabalho permanece como principal sustentação da confiança ao preservar empregos, renda e capacidade de pagamento. Entretanto, esse fator, de forma isolada, já não consegue incentivar o consumo na mesma intensidade observada nos últimos meses, diante do elevado custo do crédito, do maior comprometimento da renda familiar e da inflação ainda concentrada em despesas essenciais.

Essa conjuntura ajuda a explicar o desempenho recente do varejo paulista, marcado por crescimento moderado das vendas. Em vez de ampliar o consumo, os lares passaram a priorizar planejamento financeiro, pesquisa de preços e comparação entre canais físicos e digitais, além de adotarem mais seletividade nas compras, comportamento que deve continuar predominando enquanto persistirem condições financeiras restritivas.

Nesse contexto, torna-se ainda mais importante que as empresas aprofundem o conhecimento sobre o perfil do consumidor, utilizem ferramentas de inteligência de dados para segmentação de ofertas, fortaleçam programas de fidelização e preservem a gestão do capital de giro. Estratégias comerciais baseadas exclusivamente em descontos tendem a produzir resultados limitados em um ambiente de crédito caro, sendo mais eficiente agregar valor, conveniência, qualidade do atendimento e condições de pagamento compatíveis com a capacidade financeira das pessoas.

Matéria: Site Fecomercio