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A CICLOVIA E A SUA MEDIOCRIDADE

Por Sincomercio de Adamantina clock 21 de setembro de 2026

Confira o conteúdo assinado pelo presidente do Sincomercio Nova Alta Paulista, Sérgio Vanderlei

Por Sérgio Vanderlei

Uma obra aguardada por anos, que poderia representar segurança, mobilidade e valorização urbana, corre o risco de entregar muito menos do que a população esperava

Durante anos, a população de Lucélia e Adamantina aguardou uma solução para um problema bastante conhecido: a ligação entre os dois municípios por uma infraestrutura segura para ciclistas e pedestres.

São poucos quilômetros que separam as duas cidades, mas, para quem precisa fazer diariamente esse percurso para trabalhar, estudar, fazer compras ou simplesmente se deslocar, a distância é percorrida em uma via que exige atenção redobrada.

A ausência de uma estrutura específica para bicicletas e pedestres sempre representou um problema de segurança. O próprio Estudo Técnico Preliminar elaborado pela Prefeitura de Lucélia reconhece que a falta de infraestrutura adequada na vicinal Radialista João Vaz Pinto representa riscos aos ciclistas e que a implantação da ciclovia tem justamente entre seus objetivos melhorar a segurança e a mobilidade.

Por isso, a expectativa era enorme.

Uma obra que poderia ser muito mais do que simplesmente uma faixa pavimentada às margens de uma estrada.

Poderia ser um cartão de visitas para as duas cidades.

Poderia demonstrar planejamento, cuidado com o espaço público, valorização das pessoas e, por que não, contribuir para tornar a entrada e a saída dos municípios mais bonitas e atrativas.

Afinal, há anos se discute a falta de atrativos urbanos, de paisagismo e de zeladoria em municípios da Nova Alta Paulista. Uma ciclovia bem planejada poderia ajudar a mudar essa percepção e até estimular a circulação de pessoas e o comércio local.

O investimento não é pequeno

No trecho de responsabilidade de Lucélia, estão previstos 2,2 quilômetros de ciclovia, ligando o perímetro urbano à divisa com Adamantina.

O valor estimado no processo de contratação é de R$ 1.207.397,22. A obra é financiada por meio de convênio com o Fundo de Interesses Difusos (FID), do Governo do Estado de São Paulo.

Do outro lado, Adamantina possui um projeto de 920 metros, pela vicinal Moysés Justino da Silva, entre a região do Jardim Bela Vista e a divisa com Lucélia. O orçamento inicial divulgado para esse trecho foi de R$ 1.032.280,74.

Somados, os dois trechos representam uma intervenção importante para a mobilidade entre os municípios.

E justamente por isso a pergunta precisa ser feita: era para entregar apenas uma ciclovia ou era para entregar uma obra pública de qualidade?

A primeira impressão preocupa

No trecho luceliense, à medida que a primeira fase avança, a percepção de quem observa a obra é, no mínimo, frustrante.

A expectativa era encontrar uma estrutura capaz de transformar a paisagem e oferecer uma experiência segura, agradável e moderna para quem utiliza o percurso.

Mas aquilo que vem sendo observado por moradores e usuários provoca uma pergunta incômoda: onde está o planejamento capaz de transformar uma obra tão esperada em uma referência para a região?

É preciso deixar claro: não se trata de questionar a importância da ciclovia.

A ciclovia é necessária.

O questionamento é sobre a qualidade da entrega.

Uma obra pública não deveria ser considerada satisfatória simplesmente porque foi executada e medida em metros lineares.

É preciso olhar para o conjunto.

Pavimentação, acabamento, drenagem, sinalização, segurança, acessibilidade, iluminação, paisagismo, integração com a via existente e manutenção futura precisam fazer parte da discussão.

No caso de Adamantina, por exemplo, o projeto divulgado prevê pavimentação, sinalização, paisagismo e iluminação, além de uma passarela de aproximadamente 30 metros para a travessia da ferrovia.

Ou seja: o próprio projeto demonstra que uma ciclovia pode ser pensada como infraestrutura urbana completa, e não apenas como uma pista.

Uma comparação inevitável

Basta observar ciclovias construídas em diferentes municípios do Estado de São Paulo para perceber que existem soluções muito mais qualificadas para esse tipo de equipamento público.

Não se trata de querer transformar uma estrada vicinal em uma avenida monumental.

Trata-se de perguntar por que uma obra financiada com dinheiro público não pode aliar funcionalidade, segurança e beleza.

Por que não aproveitar a oportunidade para criar um espaço que incentive o uso da bicicleta, estimule caminhadas, valorize a entrada das cidades e produza uma imagem positiva para quem chega?

A obra poderia ser uma vitrine.

Poderia mostrar que municípios pequenos também são capazes de planejar.

Poderia mostrar que não é necessário ter milhões de habitantes para oferecer infraestrutura urbana de qualidade.

Mas, para isso, é preciso acompanhar a obra de perto.

Planejar não é apenas contratar

Uma das questões que merecem ser discutidas é justamente o acompanhamento da execução.

Planejamento público não termina quando o projeto é elaborado ou quando a licitação é concluída.

Ele continua durante a execução.

É nesse momento que aparecem problemas, interferências, ajustes, necessidades de acabamento e situações que exigem fiscalização técnica.

Em Lucélia, inclusive, houve necessidade de providências relacionadas à localização de postes de empresas de telecomunicações no trecho da futura ciclovia. Uma decisão judicial determinou o remanejamento de postes da Vivo por questões relacionadas à segurança viária.

Situações como essa reforçam a importância de um acompanhamento rigoroso antes, durante e depois da execução.

Porque obra pública não pode ser apenas inaugurada.

Precisa funcionar.

E precisa continuar funcionando bem depois da fotografia oficial.

E Adamantina?

A expectativa agora também se volta para o trecho adamantinense.
A Prefeitura informou em maio de 2026 que os trabalhos foram iniciados na Vicinal Moysés Justino da Silva e que a execução é acompanhada pela Secretaria Municipal de Planejamento.

O município enfrenta, porém, uma questão específica envolvendo a travessia da ferrovia. A Prefeitura informou que realiza tratativas e adequações relacionadas à concessionária Rumo e às exigências da ANTT para a futura passarela.

Que o trecho de Adamantina consiga entregar aquilo que se espera de uma obra desse porte.
Que seja seguro.
Que seja bonito.
Que seja bem sinalizado.
Que tenha acabamento adequado.
Que tenha paisagismo.
Que seja iluminado onde previsto.
Que seja acessível.
E, principalmente, que seja pensado para as pessoas que vão utilizá-lo diariamente.

A população merece mais

Não é razoável que uma obra aguardada durante tantos anos seja tratada apenas como mais um item cumprido em uma planilha administrativa.

São 2,2 quilômetros em Lucélia e 920 metros em Adamantina que podem representar muito para quem depende dessa ligação.

É uma obra de mobilidade, mas também pode ser uma obra de urbanismo.

É uma obra de segurança, mas também pode ser uma obra de valorização.

É uma obra pública, mas também pode ser uma oportunidade de melhorar a imagem das duas cidades.

Por isso, a crítica não deveria ser interpretada como oposição à ciclovia.

Muito pelo contrário.

É justamente porque a ciclovia é importante que a cobrança precisa existir.
O dinheiro público exige responsabilidade.

A população exige qualidade.

E quem utiliza o trajeto todos os dias merece uma estrutura que esteja à altura da expectativa criada durante tantos anos.

Uma obra dessa importância não deveria terminar apenas com alguns quilômetros de concreto e asfalto.

Deveria terminar com a sensação de que valeu a pena esperar.Até aqui, porém, a impressão deixada por parte da execução é desanimadora.

Matéria: Site Impacto Notícias.