CULTURA COMO POLÍTICA PÚBLICA
Confira o artigo escrito por SÉRGIO VANDERLEI, conselheiro do SESC SP

Quando falamos em cultura, muita gente ainda pensa em shows, festas, espetáculos e eventos comemorativos. Embora tudo isso faça parte do universo cultural, precisamos ampliar essa visão. Cultura é identidade, educação, pertencimento, desenvolvimento econômico e, acima de tudo, um direito do cidadão. Por isso, precisa ser tratada como política pública permanente, e não apenas como uma agenda de eventos ou uma ação eventual de cada governo.
Fazer da cultura uma política pública significa planejar, investir recursos, estabelecer metas, valorizar os artistas, preservar a memória e garantir que a população tenha acesso às diferentes manifestações culturais. Significa compreender que a cultura deve chegar a todos os bairros, às periferias, às comunidades rurais, às crianças, aos jovens, aos idosos e às pessoas que, historicamente, tiveram menos oportunidades de acesso.
E há um argumento que precisa ser cada vez mais conhecido pelos gestores públicos: investir em cultura também é investir na economia.
Pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada em janeiro de 2026, sobre os projetos executados em 2024 por meio da Lei Rouanet, apontou que cada R$ 1 investido pelo mecanismo de incentivo fiscal gerou um retorno de R$ 7,59 para a economia e a sociedade. No mesmo período, os projetos movimentaram R$ 25,7 bilhões e contribuíram para gerar ou manter mais de 228 mil postos de trabalho. São números que demonstram a capacidade da cultura de movimentar uma extensa cadeia produtiva, envolvendo artistas, técnicos, produtores, fornecedores, hotéis, restaurantes, transportadores e inúmeros outros profissionais.
É importante lembrar que esse resultado se refere especificamente aos projetos apoiados pela Lei Rouanet e não deve ser automaticamente aplicado a todo investimento cultural municipal. Ainda assim, ele evidencia o potencial econômico do setor e reforça que a cultura não pode ser vista simplesmente como despesa: ela também gera trabalho, renda, oportunidades e desenvolvimento local.
Mas seus benefícios vão além da economia. A presença da cultura na vida cotidiana pode fortalecer vínculos comunitários, ampliar oportunidades para crianças e jovens, estimular o convívio entre diferentes gerações e criar alternativas de participação social. Quando existem atividades culturais acessíveis, espaços de convivência e oportunidades de expressão, contribui-se também para a prevenção de situações de vulnerabilidade e violência.
Isso não significa que a cultura, sozinha, resolverá os problemas da saúde ou da segurança pública. Essas áreas precisam de investimentos próprios, profissionais qualificados e políticas específicas. Entretanto, uma política cultural consistente pode atuar de forma complementar às demais políticas sociais, ajudando a enfrentar problemas antes que eles se agravem. Investir na prevenção, no pertencimento e nas oportunidades também faz parte de uma estratégia responsável de desenvolvimento humano.
É justamente nesse processo que o secretário municipal de Cultura assume um papel decisivo.
Muitas vezes, o sucesso ou o fracasso de uma política cultural começa dentro do próprio gabinete da secretaria. Cabe ao secretário sensibilizar o prefeito, demonstrar resultados, apresentar projetos, defender recursos no orçamento e mostrar que a cultura precisa ocupar um lugar permanente nas prioridades da administração municipal.
O prefeito tem a responsabilidade de definir as grandes prioridades do governo, mas é o secretário quem deve transformar a visão em planejamento, o planejamento em ações e as ações em resultados concretos. Na prática cotidiana, sua capacidade de articulação, iniciativa e convencimento podem ser determinante para que a cultura deixe de ser coadjuvante e passe a integrar o projeto de desenvolvimento do município.
O primeiro passo é conhecer a realidade cultural da cidade. É necessário mapear artistas, músicos, grupos de teatro, companhias de dança, artesãos, escritores, produtores, coletivos periféricos, mestres da cultura popular, comunidades tradicionais e espaços independentes. Esse levantamento permite identificar talentos, necessidades, vocações e oportunidades que muitas vezes permanecem invisíveis ao poder público.
A partir desse diagnóstico, o secretário pode construir um calendário cultural descentralizado, criar mecanismos transparentes de fomento, promover editais acessíveis, estimular a formação artística e aproximar a população dos equipamentos culturais. Também precisa ouvir os agentes culturais e estabelecer canais permanentes de diálogo, para que as decisões não sejam tomadas de cima para baixo, distantes da realidade de quem produz cultura.
Outro caminho fundamental é buscar parcerias com instituições reconhecidas, como o SESC, além de universidades, organizações sociais, empresas e outras entidades que possam contribuir com conhecimento, programação, formação e projetos conjuntos. Essas parcerias ampliam as possibilidades de atendimento à população e permitem compartilhar experiências, competências e recursos, respeitando a autonomia e as características de cada instituição.
O secretário municipal de Cultura precisa, portanto, ser muito mais do que um organizador de eventos. Deve atuar como articulador, planejador, mobilizador de recursos e defensor dos direitos culturais. Precisa ter capacidade de dialogar com o prefeito, com a Câmara Municipal, com os demais secretários, com a iniciativa privada e, principalmente, com a comunidade artística.
Uma cidade que investe em cultura investe também na sua identidade, na sua economia e no futuro de sua população. Para isso, é indispensável que os prefeitos compreendam a relevância desse investimento e que os secretários tenham protagonismo, estrutura e condições de trabalho para realizar essa missão.
A cultura só se transforma verdadeiramente em política pública quando deixa de depender da vontade de um governante e passa a fazer parte do compromisso permanente de uma cidade com seus cidadãos. E, nessa construção, o secretário municipal de Cultura pode ser a liderança que transforma essa ideia em realidade.