O comércio resiste, mas o momento exige atenção
Artigo assinado pelo presidente do SINCOMÉRCIO Nova Alta Paulista, Sérgio Vanderlei

O comércio varejista continua demonstrando sua capacidade de adaptação e resiliência, características que sempre marcaram um dos setores mais importantes da economia brasileira. No entanto, é impossível ignorar os sinais de desaceleração que começam a aparecer com maior intensidade nos indicadores econômicos e no dia a dia dos empresários.
Os dados mais recentes da Pesquisa Conjuntural do Comércio Varejista (PCCV), da FecomercioSP em parceria com a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, mostram uma queda de 6,9% no faturamento real do comércio paulista em abril, na comparação com o mesmo período do ano anterior. No acumulado do ano, a retração chega a 5,1%, refletindo um ambiente econômico que tem dificultado o consumo e reduzido o ritmo de crescimento do setor.
É importante destacar que a realidade do comércio varia de acordo com cada segmento. As vendas continuam acontecendo e o empresário segue trabalhando para manter seus negócios competitivos. O comércio continua de pé porque é, historicamente, um setor resiliente. Entretanto, o cenário está longe de ser confortável.
O principal desafio está no ambiente econômico. As taxas de juros permanecem elevadas, a inflação continua pressionando o orçamento das famílias e a confiança do consumidor e do empresário ainda não se recuperou plenamente. Quando o crédito fica mais caro, o consumidor adia compras de maior valor, enquanto o empresário reduz investimentos por falta de previsibilidade.
Outro fator que merece grande preocupação é o elevado endividamento das famílias. No Estado de São Paulo, aproximadamente sete em cada dez famílias possuem algum tipo de dívida, e cerca de três enfrentam contas em atraso. Essa realidade compromete diretamente o poder de compra da população, principalmente nos segmentos que dependem de financiamentos, como móveis, eletrodomésticos, eletrônicos e materiais de construção.
Mais recentemente, um novo elemento passou a fazer parte dessa equação: o crescimento das plataformas de apostas esportivas e jogos on-line, as chamadas bets. O problema não está apenas na existência dessa atividade, mas no impacto que ela pode causar sobre o orçamento familiar. Recursos que antes eram destinados ao consumo, à poupança ou ao pagamento de compromissos financeiros acabam sendo direcionados às apostas. Quando isso ocorre de forma descontrolada, aumenta o risco de endividamento e reduz ainda mais a capacidade de consumo das famílias.
Vivemos uma situação em que muitos consumidores continuam tendo renda, mas possuem cada vez menos dinheiro disponível para consumir. Uma parcela significativa do orçamento é comprometida com juros, parcelas de financiamentos, dívidas acumuladas e, em alguns casos, gastos com apostas. O reflexo é sentido diretamente no caixa das empresas.
Mesmo diante desse cenário, os empresários continuam fazendo sua parte. Buscam eficiência, investem em atendimento, tecnologia e qualificação, adaptam estoques e procuram oferecer melhores condições aos clientes. Porém, a realidade também impõe margens de lucro cada vez menores e custos operacionais elevados, o que naturalmente reduz o entusiasmo para novos investimentos e limita a expansão dos negócios.
Observa-se ainda que o setor de serviços tem conseguido manter um desempenho relativamente mais resiliente, enquanto o comércio voltado às classes C, D e E sofre de maneira mais intensa os efeitos da perda do poder de compra das famílias. É justamente nesse público que os impactos dos juros, da inflação e do endividamento aparecem com maior força.
Como presidente do SINCOMÉRCIO Nova Alta Paulista, acompanho diariamente as preocupações dos empresários da nossa região. Apesar das dificuldades, existe disposição para continuar investindo e gerando empregos. O comércio local permanece como um dos pilares do desenvolvimento econômico regional, movimentando a economia e contribuindo para a qualidade de vida da população.
O momento, porém, exige reflexão e ações concretas. Para que o comércio volte a crescer de forma consistente, o Brasil precisa criar um ambiente econômico mais favorável à produção, ao investimento e ao empreendedorismo. Isso passa por juros mais compatíveis com a realidade econômica, controle da inflação, ampliação do acesso ao crédito, redução da burocracia e fortalecimento de políticas que recuperem a capacidade de consumo das famílias.
O comércio continuará cumprindo seu papel. Mas, para crescer com mais força e continuar gerando oportunidades, é indispensável que consumidores e empresários encontrem um cenário econômico mais equilibrado, capaz de estimular a confiança, os investimentos e o desenvolvimento.